Ao celebrarmos os 90 anos da Escola Luís de Camões, é importante recordar não apenas a longevidade desta instituição, mas também as circunstâncias históricas que levaram à sua criação e o papel que tem desempenhado na preservação da língua e da cultura portuguesas entre sucessivas gerações de luso-americanos.
Neste trabalho histórico, o escritor e investigador Fernando dos Santos leva-nos às origens do ensino português nas comunidades da Costa Leste dos Estados Unidos, enquadrando o nascimento da Escola Luís de Camões no difícil período que se seguiu à crise económica de 1929. Ao longo de três artigos, ficamos a conhecer o contexto que levou à criação de dezenas de escolas portuguesas, as dificuldades vividas pelas famílias emigrantes e, finalmente, a história da nossa própria Escola — desde as primeiras aulas em 65 Madison Street, em 1936, passando pela sua oficialização em 1961, pela mudança para 87 Congress Street, até à continuidade da sua missão, hoje em Newark e Warren.
É um registo que ajuda a compreender como, durante nove décadas, o Sport Clube Português e muitas gerações de dirigentes, professores, famílias e alunos mantiveram viva uma instituição criada para transmitir a língua, a cultura e a ligação a Portugal. Segue-se, na íntegra e sem alterações, o texto de Fernando dos Santos.
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Os 90 anos (1936-2026) da Escola Luis de Camões – 1
ESCOLAS DOS ANOS 1930 VISARAM ACAUTELAR REGRESSO
A PORTUGAL DEVIDO À CRISE ECONÓMICA DE 1929
A Escola Luis de Camões do Sport Clube Português vai celebrar em 24 de Outubro a passagem dos 90 anos de existência, um período ao longo do qual passou a língua portuguesa para milhares de crianças e jovens luso-americanos.
A escola abriu solenemente no domingo dia 4 de Outubro de 1936 durante a sessão solene que evocava os 26 anos de regime republicano em Portugal. As aulas começaram no dia seguinte, dia 5, coincidindo com o feriado da implantação da República em Portugal que por esses tempos era o grande feriado nacional, quer em Portugal quer nas comunidades luso-americanas.
Antes de falar da história da Escola Luis de Camões propriamente dita, queria dar a conhecer o contexto em que ela nasceu, ela e as mais de duas dezenas de escolas portuguesas das associações e das igrejas (e algumas de iniciativa privada) que surgiram na costa leste no período imediato à depressão económica de 1929. Serão 3 artigos para os próximos três dias: Este com as mais de duas dezenas de escolas portuguesas nascidas nos anos 1930; um segundo com a atmosfera de crise económica que despoletou a apressada vaga de escolas para preparar os filhos para um eventual regresso a Portugal, e, finalmente, um pouco da história da Escola Luis de Camões.
O CONTEXTO EM QUE SURGEM AS ESCOLAS
Desde 1917, estava vetada a entrada de imigrantes analfabetos nos Estados Unidos e quando chegaram os anos 1930s, estava de algum modo ultrapassada a fase da criação de escolas para responder ao problema do analfabetismo comunitário, factor determinante nas escolas portuguesas pioneiras do Hawaii, Califórnia e Massachusetts do fim do século 19 e princípio do século 20. A vaga de escolas portuguesas nascidas no fim de 1929 e na década de 1930 tinha, desta vez, outro objectivo: evitar o trauma linguístico dos filhos menores de emigrantes portugueses no caso de um eventual regresso a Portugal em consequência da devastadora recessão económica de 1929 e anos posteriores. Na verdade, milhares de emigrantes portugueses tiveram de fazer esse percurso de torna viagem.
MAIS DE 2 DEZENAS DE ESCOLAS
NA COSTA LESTE, NOS ANOS 1930
A depressão económica de 1929 começou a ser pesadamente sentida nos Estados Unidos em Setembro desse ano e notoriamente em avanço pelo mundo inteiro com a queda da bolsa de Nova Iorque em Outubro do mesmo ano.
Foi na década de 1930 que, enfrentando a ameaça do retorno a Portugal, as comunidades criaram a maior parte das escolas associativas de New Jersey, Nova Iorque, Connecticut e, em geral, da costa leste:
NEWARK, NJ
As primeiras escolas portuguesas surgiram em Newark logo em 1930:
IGREJA ESPANO-PORTUGUESA – Uma das entidades pioneiras a criar uma escola portuguesa em Newark foi a antiga Igreja espanhola de S. José (Lafayette/Prospect Sts.), frequentada pela comunidade portuguesa. Em 30 de Novembro de 1930, com a presença do Cônsul de Portugal em Nova Iorque, Dr. Verdades de Faria, a escola portuguesa desta igreja foi inaugurada e passou a funcionar na cave do edifício.
Esta igreja era a frequentada pela comunidade portuguesa até à inauguração da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Jefferson St., em 1958.
É óbvio que quer o Sport quer a imprensa local deram apoio à iniciativa, bem como às festas posteriores que geravam receita para a escola e onde o Sport normalmente participava através da sua banda musical.
ESCOLA DA IGREJA PRESBITERIANA – A Igreja Presbiteriana de S. Paulo, na Union e Lafayette Sts., criada em Newark em 1929 e frequentada pela comunidade portuguesa e brasileira, tinha também no ano lectivo 1930-31 a funcionar uma escola portuguesa, sendo excelentes as relações do Sport e outras organizações portuguesas com o seu pastor brasileiro Samuel Rizzo e com o seu professor, Conceição Jr., um professor formado em Letras em Portugal e, mais tarde, em Teologia pela Universidade de Princeton, que era também presença imprescindível, para um discurso patriótico, nas festas comunitárias.
ESCOLA DO DR. CONCEIÇÃO JR. – Entre 1930 e 1935 Conceição Jr. também foi criando escolas em Newark e Elizabeth. Em Newark utilizava a sede do Sport Clube Português em 65 Madison St. e em Elizabeth a sua residência em 264 First St. Em 1935 abandonou o ensino para dedicar mais tempo aos seus afazeres com a agência de serviços e com uma mercearia que possuía, a Tagus Public Market, em 230 First Street, Elizabeth.
ESCOLA DE D. MARIA MOTA – Em 1935, para preencher a lacuna deixada no ensino de português com a retirada do ensino do Dr. Conceição Jr., surgiu em Newark, em Novembro desse ano, a professora faialense Maria de Faria Mota. Abriu em Novembro de 1935 uma escola particular em Newark e em Dezembro desse mesmo ano iniciaria também funções docentes na Escola 1º de Dezembro, acabada de criar e a funcionar no clube português de Elizabeth.
Não se sabe se com intermitências, a escola particular da professora Maria Mota ainda funcionava pelo menos em 1944, mas agora na Congress St. Regressou a Portugal em Janeiro de 1959 de onde tinha emigrado havia 44 anos.
ESCOLA LUIS DE CAMÕES – A escola Luis de Camões surgiria em 1936, aparentemente por não querer criar nos anos anteriores concorrência às escolas já existentes com as quais colaborava cedendo, até, instalações.
Depois de em 1935 o Dr. Conceição Jr., figura com elevado ascendente no clube, se afastar do ensino, o Sport inaugurou a sua escola em 1936.
A escola da professora Maria Mota deveria, contudo, ter sofrido alguma concorrência da parte da escola Luis de Camões do Sport Clube Português. A professora Maria Mota, no ano lectivo 1937/38, oferecia descontos a quem quisesse matricular mais de um filho na sua escola particular. E, se calhar, com êxito, pois em 1939 continuava com a escola aberta, continuando a acumular esta missão com a de professora da Escola 1º de Dezembro no clube português de Elizabeth, funções que assumira logo da sua abertura em 7 de Dezembro de 1935. Deixamos, contudo, a história da Escola Luis de Camões para daqui a dois dias contada num terceiro artigo dedicado ao tema escolar.
ELIZABETH, NJ
Em Elizabeth foi criada em 1 e 2 de Novembro de 1930, em 275 Second St., a Escola João de Deus, da sucursal Nº 3 Marquês de Pombal da União Portuguesa Beneficente, esta com sede em Rhode Island. Assistiram à inauguração o cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque Dr. Verdades de Faria e o seu cônsul-adjunto João de Deus Ramos, neto do poeta e pedagogo João de Deus e a cuja presença nos Estados Unidos se deve a homenagem prestada ao seu avô no nome dado à escola.
O Dr. Conceição Jr., no mesmo ano, também aqui abriu uma escola portuguesa no mesmo bairro Elizabethport.
A Escola 1º de Dezembro, percursora da actual Escola Amadeu Correia, nasceria em 7 de Dezembro de 1935, obra das associações portuguesas mas funcionando à volta do clube português, que então se chamava Clube Social Português e hoje tem o nome de Portuguese Instructive and Social Club.
PERTH AMBOY, NJ
Ainda em New Jersey e nos anos 1930 foi criada a escola portuguesa do Portuguese Sporting Club de Perth Amboy (1935).
A notícia da abertura iminente da primeira escola do clube de Perth Amboy é dada em Janeiro de 1935, depois de esforços nesse sentido despendidos pela direcção associativa do ano 1934, presidida por José Freire Santos, que seria o seu primeiro professor.
Em Maio de 1935 já é noticiado na imprensa luso-americana que a “Escola Portuguesa… já deu começo na sede social do Portuguese Sporting Club desta cidade”, então em 391 Keen Street.
As mobilizações de homens associadas à segunda guerra mundial também afectaram o Sporting Club de Perth Amboy. Aideia da refundação da escola e a sua designação de Escola Nova Esperança surgiu depois de em 1967 o clube ter comprado a actual sede em 782 State Street, instalações que deram espaço para o funcionamento de diversas secções associativas.
EM NOVA IORQUE E NOVA INGLATERRA
NOVA IORQUE: Neste estado, foram criadas as escolas do Clube Vasco da Gama, Manhattan (1930), do clube português de Mamaroneck (1932), a da União Beneficente Protectora de New Rochelle (1930s), a do clube português de Yonkers (1935), a de Mount Vernon (1937), a de Manhattan/Soho (1938), a de Brooklyn (1938), Bronx (1939), Jamaica (1939).
CONNECTICUT: No estado de Connecticut, também surgiram nos anos 1930s a escola portuguesa do clube de Hartford (1932), a escola do Clube Filhos de Portugal de Danbury (Dezembro de 1929), escola do clube português de New Haven (1934) e do clube português de Bridgeport (1935).
MASSACHUSETTS: No estado de Massachusetts, a escola portuguesa oficial – e privada – abriu em Novembro de 1929, já depois da estrondosa queda da bolsa de Nova Iorque no mês anterior. Era dirigida pela professora Conceição Santos.
RHODE ISLAND: Em Junho de 1929, a poucos meses da depressão económica mas já antevendo a sua chegada, foi criada a escola do Ateneu Recreativo Teófilo Braga, de Providence. Ainda em 1929, foi criada uma escola no mesmo molde, e também em Providence, pela comunidade cabo-verdiana. Em Janeiro de 1931, surge a escola portuguesa da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Providence, a que iria ser dado o nome de António Serpa, o sacerdote fundador da igreja.
Com as medidas tomadas pelas autoridades americanas em 1917 impedindo a entrada de imigrantes analfabetos, com o passar dos anos e com o crescimento numérico dos filhos alfabetizados dos imigrantes, o analfabetismo saíu da praça pública como justificação para a abertura de escolas, apesar de também ser esporadicamente referido aqui ou ali.
Com a necessidade de criar ou manter o brio patriótico e perante a impossibilidade de Portugal receber com generosidade os que quisessem regressar, a vaga de escolas abertas nas comunidades da costa leste americana nos anos 1930s foi sempre muito mais justificada pela patriótica razão de passar a língua e a história portuguesas às gerações futuras de luso-americanos, apesar de, sempre mal referida, estar subjacente a preparação dos filhos para o caso dos efeitos da recessão económica de 1929 os forçar a regressar a Portugal, como milhares o fizeram. Falaremos disso amanhã noutro texto.
As grandes vagas de emigração portuguesa da década de 1960 e seguintes levantaram um refrão antigo: passar a língua portuguesa às novas gerações de luso-americanos e para alguns havia uma razão prática: Ao fim de 5 anos pensavam regressar a Portugal, um plano que acabaram por não cumprir, mas cujo rascunho também não rasgaram.
Os 90 anos (1936-2026) da Escola Luis de Camões – 2
TEMPOS DE CRISE: ESCOLAS PREPARAM OS QUE
DEVEM ESTAR “SEMPRE PREPARADOS PARA SAIR”
Como já apontamos, as escolas portuguesas nascentes nos anos 1930 eram um projecto e uma realização para amortecer com urgência o possível trauma linguístico das crianças de famílias forçadas a regressar a Portugal devido à crise económica de 1929 e anos seguintes.
A CRISE ECONÓMICA
Em Newark, NJ, onde se começava a formar a importante comunidade portuguesa daquela cidade, no ano de 1929 laboravam 1.668 fábricas, mas 600 sucumbiram à crise lançando milhares de trabalhadores no desemprego.
Sem trabalho, os imigrantes começaram a ver à sua frente um regresso forçado a Portugal. Como milhares o fizeram.
Entre a comunidade portuguesa de Newark há dois casos bem próximos que reflectem a crise de então. O jornal Luso-Americano que iniciou publicação a 25 de Maio de 1928, uma sexta-feira, foi forçado a suspender a publicação em 1929. Haveria uma tentativa de ressuscitar o título em 1931, mas o seu reaparecimento só aconteceu em 1939 pela mão de Vasco Jardim.
Outro caso curioso e outra vítima da crise foi o restaurante português Leão d’Ouro que estava aberto pelo menos em 1926 em 82 ½ Ferry Street, endereço mais tarde ocupado pelo conhecido e histórico restaurante Ibéria (1934-2023). O Leão d’Ouro tinha sido aberto por Acácio Cruz, um monçanense antigo cozinheiro no palácio de D. Manuel II e que desertou do cruzador S. Gabriel quando em Julho de 1920 passou por portos da costa leste americana.
Durante a crise económica iniciada em 1929, Acácio Cruz manteve a porta aberta do que era a principal sala de restauração e de acontecimentos sociais da nascente comunidade portuguesa, mas o peso dos fiados encerrou-lhe a porta colocando em leilão o património da sua empresa.
A crise era generalizada e não feria somente os residentes de New Jersey.
Em Maio de 1930, o correspondente em Framingham, Mass., do Diário de Notícias de New Bedford não respeitou o que pareciam cautelas oficiais na abordagem das consequências da crise económica americana entre as comunidades portuguesas:
“O que será desta pobre gente que se vê sem dinheiro e sem trabalho e o governo sem tomar as necessárias medidas para acabar com esta triste situação? – perguntava o correspondente do DN, e concluia: “… desde que a casa não é nossa, devemos estar sempre preparados para sair”.
Na imprensa luso-americana encontram-se repetidas acções caritativas para angariar fundos para o repatriamento de conacionais em dificuldades económicas. Isso é relatado em Newark, NJ; em Good Year, Conn.; em Fall River, Mass.; em Waterbury, em Danbury, Conn.
Na Califórnia, o cenário não era diferente. Em Sacramento, as oficinas SP Co., onde trabalhavam milhares de portugueses, estavam em Outubro de 1930 a despedir pessoal “causando grande transtorno a milhares de famílias” – segundo um relato na imprensa luso-americana.
Em 1933, no texto do decreto-lei 23116 de 11 de Outubro, o governo português anuncia as medidas que vai tomar a bordo dos navios nacionais para acudir no sector médico e de apoio ao crescente número de emigrantes que regressavam a Portugal e reconhece que “nos últimos anos se modificaram as correntes migratórias, registando-se o facto de o número de desembarques ser três a quatro vezes superior ao número de embarques”.
O jornalista Armando Boaventura, do Diário de Notícias de Lisboa, que em Março de 1934 visitou a Nova Inglaterra, observou in loco as efeitos da crise de 1929.
“Verifica-se, pois – escreveu – que, como um grande e violento incêndio, a crise de 1929 … devastou uma parte do Estado de Massachusetts, arruinando-o materialmente e moralmente … Em New Bedford e Fall River só 50 por cento estão empregados”– escreveu referindo-se às comunidades portuguesas de ambas as cidades.
“Para tudo isto, que eu vi e que com profunda mágoa e até revolta sou obrigado a trazer a público, ouso chamar a atenção do Estado Português – do Estado Novo, que, de nenhum modo, pode continuar, como o fez o Estado Velho, a descurar o problema nacional da emigração para a América do Norte, abandonando inteiramente à sua sorte esses milhares – 400 ou 500 mil – de portugueses que vivem, hoje, uns, na miséria, por falta de trabalho, e outros alheados da Pátria, renegando-a, por vezes…”
Durante todo o ano de 1934, pelo menos, a agência de viagens Guilherme Luis, de New
Bedford, anunciava serviços de preparação de documentos para os que quisessem regressar a Portugal. A Segurança Social americana, que poderia atenuar muitos males, só foi criada em Agosto de 1935.
Nas suas intervenções, os cônsules evitavam falar da crise, porque os regressos a Portugal não resolviam os problemas dos imigrantes e agravavam os problemas do país.
Em 25 de Março de 1934, contudo, o cônsul de Portugal em New Bedford, António Madureira e Castro, interveio no programa radiofónico “Os Dois Compadres Micaelenses”, para abordar o tema do ensino da língua portuguesa, que ele chamou “um assunto que de dia para dia mais importante se torna”. O cônsul salientou a importância dessas escolas para perpetuar a presença portuguesa entre a sociedade americana, mas enalteceu também o lado pragmático da aprendizagem da língua:
“O conhecimento da língua portuguesa beneficia aqueles que daqui resolvam sair” – disse o cônsul, apontando também como eventual destino as colónias portuguesas: “Os horizontes alargam-se – Portugal, Madeira, Açores, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Guiné, Angola, Moçambique e Índia, Macau e Timor e a imensa república do Brasil – para aquele que, falando o inglês, fale igualmente bem o português”…. ”O saber falar e escrever português não deve ser considerado uma sobrecarga inútil, bem pelo contrário, pode ser a varinha de condão que abre a porta para grandes oportunidades no futuro”.
Lembrando em 1940 os dias difíceis dos portugueses emigrados apanhados pela recessão económica iniciada em 1929 e os problemas ligados ao seu regresso forçado e à perda das remessas, o deputado Antunes Guimarães classificou esses dias no parlamento como um período de “gente a mais e dinheiro a menos”.
Com a língua portuguesa aprendida na escola, haveria menos um trauma para as crianças nesse eventual regresso a Portugal.
Os 90 anos (1936-2026) da Escola Luis de Camões – 3
PRIMEIRAS AULAS DA ESCOLA LUIS DE
CAMÕES FORAM EM 65 MADISON STREET
A criação da Escola Luis de Camões do Sport Clube Português foi solenemente declarada na sessão solene do domingo 4 de Outubro de 1936, uma sessão evocativa da implantação do regime republicano em Portugal em 1910, mas as suas portas só se abriram na segunda-feira, 5 de Outubro, a data da tomada do poder pelos republicanos, acontecimento que, por esses tempos, estava na origem do maior feriado nacional português celebrado nas comunidades luso-americanas.
As aulas da Escola Luis de Camões do Sport Club Português iriam decorrer no ano lectivo 1936/37 na sua sede em 65 Madison St. sendo o primeiro professor Miguel Barros, ensaiador do grupo dramático do clube.
PROJECTO RECUAVA A 1930
O projecto de criação de uma escola portuguesa dentro do Sport Clube Português recuava, contudo, a 1930, nove anos após a fundação da colectividade.
Mês e meio depois de, em Novembro de 1929, ter sido oficializada a Escola Portuguesa de New Bedford (1929), surge em 1930, dentro do Sport Clube Português de Newark, NJ, o plano de criar uma escola portuguesa, apesar de haver na área residencial portuguesa da cidade algumas iniciativas semelhantes.
A direccão do Sport de 1930, presidida por Carlos Costa Nogueira, tomou posse no dia 11 de Janeiro e logo na sua primeira reunião de direcção colocou a criação da escola portuguesa na sua agenda de iniciativas. A dar peso ao rumo educativo da sua agenda, ainda nesse mês, a direcção criou um Gabinete de Leitura equipado com livros em português e em inglês e jornais.
A apresentação desse projecto escolar foi feita publicamente em 22 de Fevereiro durante uma sessão solene evocativa do nascimento de George Washington. Foi feita por Vasco Jardim, um madeirense que em 1928 chegara a Newark procedente de Fall River e que entre 1920 (ano da chegada aos Estados Unidos) e 1928 vivera em Massachusetts as campanhas por uma escola para o ensino de português.
Vasco Jardim, primeiro secretário da direcção, disse em Fevereiro e Março de 1930 que estava tudo preparado e que para a escola funcionar só faltavam os alunos.
Os alunos, contudo, estavam noutras escolas formadas nos primeiros anos de 1930 e com as quais o Sport não precisava de criar atritos.
Haverá duas razões para o Sport adiar o projecto. Por um lado seria uma despesa suplementar em período de incerteza económica. Nessa mesma sessão solene de 22 de Fevereiro de 1930, para assinalar o Dia do presidente George Washington, notou-se que as pessoas evitavam despesas e as presenças foram poucas. No dia 8 de Novembro de 1931, um domingo, uma festa de beneficência a favor de José Luis Pinheiro reuniu apenas umas 60 pessoas. Consequência dos tempos que corriam, no fim de 1934, depois da profunda recessão económica iniciada em 1929, o Sport contava apenas com 150 sócios e o baile de aniversário do clube, em Dezembro, contou com pouco mais de 50 sócios.
Segundo um depoimento sobre esses tempos feito em Dezembro de 1941 no Diário de Notícias pelo sócio Romeu Cascaes, que iria ser presidente do Sport em 1943 e 1944 e contemporâneo dos acontecimentos, o clube foi salvo nesses anos difíceis pelos directores “Eduardo Baptista, António Filipe, Adolfo Pinheiro e muito especialmente Domingues Rodrigues cuja contribuição montou a algumas centenas de dólares em empréstimos a uma sociedade moribunda e que de crédito pouco mais lhe restava do que o nome já pouco prestigiado”.
A escola foi uma iniciativa mobilizadora como também o iria ser nos anos seguintes a construção da nova sede na Prospect Street, inaugurada em 7 de Dezembro de 1941. A gestão do Sport de 1937 chegou ao fim do ano com 351 sócios e $2.500 nos cofres. Por outro lado, no meio do entusiasmo para construir a sede, em 1940 o número de sócios registados no clube ultrapassava os 1.200.
O NOME LUIS DE CAMÕES
A decisão da direcção do Sport Clube Português de abrir a sua escola foi tomada na assembleia geral de 15 de Julho de 1936, projectando a sua abertura para o mês de Outubro seguinte.
O nome a dar à escola – Luís de Camões – foi adoptado na assembleia de 12 de Agosto de 1936.
As aulas do Sport Club Português iriam decorrer no ano lectivo 1936/37 na sua sede em 65 Madison St. sendo o primeiro professor Miguel Barros, ensaiador do grupo dramático do clube.
No ano lectivo 1937/38, agora com o professor Augusto Mesquita, as aulas tinham lugar quatro dias por semana, dois dias para principiantes e outros dois para os alunos mais avançados.
Por razões ligadas à ocupação das salas por materiais de construção destinados à nova sede da Prospect Street, as aulas foram suspensas na sede da Madison St. durante boa parte de 1941, reabrindo em 17 de Novembro desse ano.
A INAUGURAÇÃO EM 1936
A festa associativa da inauguração da escola Luis de Camões a 4 de Outubro de 1936 contou com quatro centenas de pessoas e a presença do Cônsul de Portugal em Nova Iorque, Dr. Verdades de Faria.
As aulas da Escola Luis de Camões do Sport Clube Português eram grátis e a sua frequência incluia ainda os materiais escolares gratuitos.
As aulas começaram na segunda-feira, dia 5 de Outubro, mantendo uma média de 40 a
50 alunos até 1941 (70 alunos em 1940 divididos em 4 classes).
No ano lectivo 1937/38, agora com o professor Augusto Mesquita, as aulas tinham lugar quatro dias por semana, dois dias para principiantes e outros dois para os alunos com conhecimentos mais avançados da língua portuguesa.
Em Novembro de 1940, devido ao numero atingir uma media de 80 alunos a secção de Instrução e Recreio, com a aprovação da Direcção, viu-se na necessidade de adicionar mais uma noite, subdividindo-as em 2 noites para cada classe.
No ano 1943/44 matricularam-se 114 alunos.
Em 1944 e até Janeiro de 1945, a Escola Luis de Camões funcionava na Escola Publica da Lafayette Street. Tendo em conta as eventuais dificuldades das crianças com o inglês, a Junta Escolar de Newark classificou-a de Escola Pública Especial, sujeita a todos os regulamentos das escolas públicas e sob a jurisdição directa do vice-superintendente das escolas, Sr. Jenkins.
Para que houvesse mais disciplina na escola, correu também a sugestão de que os pais portugueses se organizassem em Associação de Pais e Professores e que, até, assistissem às aulas.
O local das aulas regressaria em Janeiro de 1945 às instalações do Sport, no prédio adjacente à sede na Prospect St.
OS PRIMEIROS CERTIFICADOS (1938)
A Escola Luis de Camões só foi oficializada em 1961, mas até lá passava certificados de mérito escolar e, para este fim, os primeiros exames decorreram 1938 aos quais se apresentaram os alunos da terceira classe.
Os exames tiveram lugar na quarta-feira 29 de Junho, constituindo o juri o cônsul de Portugal na área metropolitana de Nova Iorque Verdades de Faria, Augusto Mesquita, professor da escola, e António Filipe, 1º secretário da direcção do Sport Clube Português.
No fim do exame, foram distribuídos sete Certificados de Mérito, aos alunos da terceira classe que deram provas de aproveitamente escolar: Manuel Almeida, Manuel Ray, João Quintas, Júlio Conde, Zuleide Santos, Izabel Quintas e Maria Conde.
1961: ESCOLA OFICIALIZADA
A Escola Luis de Camões foi oficializada em 1961. Em Setembro de 1939, esteve numa distribuição de prémios aos alunos da Escola Luis de Camões o novo cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque, Dr. Alves Jr. e o assunto foi-lhe apresentado. Prometeu diligências.
Em fins de 1960, começaram a chegar a Newark rumores de uma próxima oficialização da Escola Luis de Camões, sendo docente nessa altura a professora Maria Pia de Sousa, à qual se juntaria o professor Alfredo Rendeiro, que acabava de chegar de Portugal.
A oficialização acabaria por se concretizar pelo Decreto-Lei n.º 43814 de 22 de Julho de 1961 e a notícia da obtenção do estatuto de escola oficial chegou à Prospect Street por um ofício do Consulado Geral de Portugal em Nova Iorque com data de 3 de Agosto de 1961.
O ensino até ao 9º grau foi oficializado por despacho do Ministério da Educação em 8 de Junho de 1998.
OS PRIMEIROS DIPLOMADOS PELA ESCOLA OFICIAL (1963)
A Escola Luis de Camões foi oficializada em 1961, mas os primeiros exames para a atribuição de diploma oficial de frequência do ensino primário só tiveram lugar em Julho de 1963.
A entrega dos diplomas oficiais de ensino primário foi feita em Dezembro, durante a festa de aniversário da fundação do clube.
O juri para os exames de aproveitamento escolar foi constituído pelo cônsul de Portugal em Nova Iorque Freitas Cruz, que presidiu, pelos professores Berta da Costa Reis e Alfredo Rendeiro, e pelo director de Instrução e Recreio do Sport Club Português, Mário Pinto.
Quase todos com futura relevância comunitária, os alunos que fizeram exame em 1963, após a sua elevação a escola oficial, foram: William Ribeiro, filho do sr. Joaquim Ribeiro e Angelina Ribeiro; Amélia Cunha, filha do sr. José Maria Antunes Cunha; Antónia P. Oliveira, filha do sr. Augusto Adolfo de Oliveira e Clara F. Oliveira; Áurea Vieira Falorca, filha do sr. Anselmo Simões Falorca e de Idomina Rodrigues Vieira Falorca; Maria Aida do Vale Pinto, filha do sr. Joaquim Pinto e Maria Pinto; Rosa Maria da Silva Pereira, filha do sr. Guilherme da Silva Pereira e Ana Pereira; Maria Manuel Domingues Marques, filha do sr. Aguinaldo Januário Marques; e Ropalina de Jesus Sardo, filha do sr. Arthur Sardo e Rosalina Sebolão Sardo.
CRESCIMENTO ESCOLAR VAI IMPONDO OBRAS
O prédio na retaguarda da sede do Sport Clube Português, onde funcionava a escola Luis de Camões nos anos 1940s, passou em 1960 por obras de beneficiação levadas a cabo por uma comissão constituída por Romeu Cascais, José R. Amorim, João Madeira, Vasco Jardim, Mário Pinto, Manuel Miranda, José Guerreiro, Evaristo Cruz, Carolino Outor, Filipe Contreiras, Adelino Cabral, António Mendonça, António Valente dos Anjos, Jerónimo Xavier, Manuel Sousa, Alberto Madeira e Manuel Bastos.
Em Abril de 1967, a direcção tinha mais uma vez na mesa a necessidade de obras no mesmo prédio onde funcionava a escola, sendo então formada uma comissão para o efeito de que faziam parte Fernando Lucas dos Santos, Mário Teixeira Jr., José Marques, António Silva, João Figueiredo, A. Pires Soares, Carlos Fonseca, Jaques Rodrigues e Lucindo Freitas.
Na altura houve um donativo importante proveniente do grupo de convívio Tertúlia, cuja direcção assinou um cheque de $3.000.
Em 1969, as obras caminhavam para a conclusão. A firma contratada foi a Fonseca Construction e os trabalhos orçados em $47.500, acrescidos de $5.000 para diligências adicionais. Como a direcção só tinha em caixa $22.000 recorreu a empréstimos junto dos sócios e amigos do clube pagando juros de 4%.
A ESCOLA DA CONGRESS STREET
O actual prédio da Escola Luis de Camões em 87 Congress Street é uma antiga igreja episcopaliana comprada em Julho de 1975, juntamente com a reitoria (hoje residência privada) por $90.000. Em 1990 foi submetida
a obras de beneficiação em que foram gastos $39.500. Reabriu em 5 de Outubro de 1992 para o ano lectivo 1992/1993 com aulas da 1ª à 6ª classes. Da 7ª à 9ª classe as aulas decorriam no anexo da Prospect Street, situado nas traseiras da sede do Sport Clube Português.
GESTOS QUE TÊM MARCADO A ESCOLA
Dentro da escola foi criado um rancho infantil que teve apresentações nas festas do clube e participou na parada do Dia de Portugal pelo menos em 1985.
Uma carrinha da Cruz Vermelha americana esteve na quarta-feira 29 de Dezembro do ano 2000 no Sport Clube Português de Newark a recolher mais de 100 volumes com briquedos oferecidos às crianças de Timor pelos alunos do nono ano da Escola Luis de Camões desta associação portuguesa.
Antes do Natal desse ano, uma delegação dos alunos do 7º, 8º e 9º graus da Escola Luis de Camões do Sport Clube Português de Newark esteve também na Missão de Portugal junto da ONU, em Nova Iorque, a entregar cartões de boas-festas por si desenhados, bem como livrinhos de pintar e lápis de cera pedindo a sua canalização para as criancas de Timor. Esta missão diplomática portuguesa prometeu fazê-los chegar aos bispos de Dili e Baucau.
Recorde-se que depois do referendo de 30 de Agosto de 1999 que apontou para a independência, Timor-Leste viveu dias longos de violência até à independência em 20 de Maio de 2002.
A iniciativa da recolha de brinquedos pertenceu à professora Isabel Baptista que lançou a ideia de o Pai Natal escrever nesse ano uma carta aos alunos finalistas desta escola pedindo-lhes brinquedos para as crianças de Timor.
Já em 1999, no âmbito da campanha “Gnomos de Natal”, o Pai Natal também tinha escrito uma carta às duas centenas de alunos da Escola Luis de Camões, tendo os resultados sido canalizados para actos de solidariedade natalícia na área de Newark.
243 ALUNOS NO ANO LECTIVO 2024-25
A Escola Luis de Camões, com sede em Newark, tem uma filial presentemente sediada em Warren, nas instalações paroquiais da igreja Our Lady of the Mount, em 170 Mt. Bethel Road.
Juntamente com a sua filial de Warren, A Escola Luis de Camões contava com 243 alunos no ano lectivo 2024-2025.
Esta escola tinha 265 alunos em 1996/97; 191 alunos em 1999. Em 2000-01 a escola era frequentada por 198 alunos, por 163
alunos em 2006 e em 2011-12 era frequentada por 204 crianças, 138 nas instalações de Newark e 66 nas do município de Clark (actualmente, em Warren).
QUEM MANTÉM DE PÉ ESTAS INSTITUIÇÕES?
O Sport Clube Português mantém de pé há 90 anos uma escola onde aprenderam a língua dos seus pais ou avós milhares de crianças e jovens luso-americanos.
Por falta de informação mais vasta, e para que conste, em 2024, a Escola Luis de Camões tinha como directores Jack Costa, Isabel Manata e Tiffany Callahan, e membros do corpo docente Alexandra Farela, presidente, Bia Borges, Zee Oliveira, Cila Barbosa, Helena Gomes, Tatiana Silva, Fátima Silva, Emmanuel Araújo, Ilda Pinto e Liliana Dias.
No ano escolar 2025-2026, eram directoras Isabel Manata, Tiffanny Callahan e Alexandra Farela (directora pedagógica), sendo professores Bia Borges (Newark), Zee Oliveira (Newark e Warren), Liliana Dias (Newark e Warren), Emmanuel Araújo (Warren), Fátima Silva (Newark e Warren), Aurea Pedroso (Warren), Ashley Sanchez (Warren), Margarida Lopes (Warren), Jessica Ramos (Newark e Warren) e Lucy Bernardo (Warren).
Jack Costa, que desempenha as funções de consultor para os assuntos escolares, disse que as inscrições aumentaram para o ano lectivo 2026-27 e que procura “desesperadamente” um ou dois professores.
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